A pequena sentada sempre à minha porta chora. Há verdades que nos magoam. Verdades fingidas, sabidas, estranhas.
A pequena sabe isso, mas não pára de chorar. Bebe as suas lágrimas e seca-as, salgadas, para não mais voltarem a cair. Mas elas caem. De onde partem essas verdades? Essas mentiras! Quem lhe falou do absurdo? Da escuridão?
As palavras não me saem da boca e a pequena chora.
-Não chores pequena.
Mas ela chora, chora como se não houvesse nenhuma outra saída, nenhuma outra entrada, um outro mundo.
-Há verdades que nos magoam.
Abracei a pequena, tomei-a nos meus braços, chorei com ela, bebi as lágrimas, sequei-as, mas não pararam de cair… Caí com elas na escuridão, salvei-me daquela dor, lavando-a em sal. Dor líquida, disforme, sem nome.
A pequena abraçou-me, tomou-me nos seus braços, bebeu as minhas lágrimas, secou-as.
-Que sabes tu dessas verdades? Quem te contou delas?
Dissolvi-me em sal mais uma vez. Ninguém bom me contara aquelas verades, nem uma alma só. Seriam então verdades? Essas palavras que me choravam dos olhos, dor líquida? Seriam verdades aquelas palavras que contrariavam os anjos e a pequena? Que corroiam a minha própria verdade?
-Se as choras, essas verdades não são verdades, são mentiras, são demónios. Tu não gostas de demónios.
-Não pequena, não gosto.
Os demónios comem-nos a alma, trincam-nos o coração, torcem-nos a garganta e obrigam-nos a beber essa dor líquida que nos sai dos olhos.
E as minhas lágrimas secaram, sem que nenhum demónio tivesse o descaramento de tentar dizer apenas mais uma verdade.
*Rita Esteves
** Para a minha pequena, Patrícia
Lindo!… se eu fosse a Patrícia, mais lágrimas sairiam dos meus olhos. Verdades sentidas, vividas, feitas de afectos! Verdades de que se fazem os amigos, verdades doces que nos acalentam a alma…