C.
O excerto que se segue é o início de um conto de Luís Costa Gomes. Continue-o e conclua-o introduzindo outras personagens e descrevendo a casa onde se passa.
“A televisão disse: a época festiva que atravessamos fica sempre tristemente assinalada por um grande número de acidentes de viação. Marciana baixou o som e foi ver o perú. Pelo corredor, de nariz ao ar, ainda distinguia o cheiro dos fritos. Detestava a comida do Natal.
Espetou o bojo do perú ee ouviu a porta abrir-se e o Miguel entrar, falando com alguém. Foi recebê-los à porta da cozinha, de garfo em punho, curiosa.
- Trago aqui o Pereira para jantar connosco, mãe. Parece que não tinha para onde ir.
Num relance Marciana avaliou o vagabundo. (…)” Parecera-lhe rude o seu olhar baixo. Não muito alto, o homem erguia-se mudo e encharcado do tapete triste e gasto. Não dissera uma palavra, como se o bigode grilhaso lhe prendesse os lábios secos.
- Por favor mãe. Está frio.
Num outro relance Marciana roubou um olhar ao velho Pereira. Detestava o frio.
Pereira cotinuava mudo e baixo, encharcado e triste. Eram profundas e negras as rugas dos olhos fundos que erguera ao vislumbrar a sala escura.
- Encontrei-o lá fora, no alpendre. Não parece falar muito. Vou buscar-lhe roupas.
Marciana cruzara os braços sobre o peito farto, indignada pela criatura velha e rota que se lhe aparecera ao jantar. Não se dignara a recusá-lo, mas pregara o seu olhar enviesado no fundo olhar do visitante.
Nenhum dos três falou nos momentos seguintes. Miguel abatera-se na mudez da sala. Marciana detestava também acasos. Parecera-lhe conhecido certo gesto, certo olhar, certo traço vago de Pereira. Talvez, pensou. Ignorou. Detestava acasos.
A casa continuou muda e, ao deitar-se, Marciana duvidou das últimas horas. Que Natal!. Deixara o roto a dormir, vago, no sofá.
Deitara-se, puxando, medrosa, os cobertores até aos olhos. Aconchegou-se. Detestava o frio. Quase lá, sentiou um peso forte abater-se atrás de si. Não se moveu.
De manhã, sozinha, desceu à sala, ainda estranhamente escura. A chuva entrava pelo buraco da porta fugida. Perguntou-se, quase pacífica, onde estaria a sua porta.
A casa permaneceu muda.