Por muito tempo eu desejei estar aqui. Agora? Agora não sei. Deito a cabeça em páginas quase em branco por onde escorre a vida.
É certo que me encontro aqui e que em nenhum outro lugar eu encontraria tanta paz, tanta calma. Toda a vida acontece muito longe, como se o pôr-do-sol fosse interminável. Por muitos anos julguei que fosse. Mas por muitos anos julguei, também, nunca crescer. E será que fui sempre assim? Livre nessa ingenuidade imensa que constrói sonhos? Duvido.
Nunca acreditei que crescer implique afastarmo-nos. Mas acredito em colo, em caminhar, em papas e em chávenas de café. Acredito em dar a mão.
Por muitos anos também julguei vir a pertencer sempre aqui. Mas a vida não é uma casa de bonecas. De certo modo nunca foi, excepto, talvez, por uns breves, mínimos, tempos, em que eu sorria, trancado numa gaveta de sonhos.
Quem disse que a noite não chegava? Quem esperou incessantemento o dia quando o sol nasce sempre? Quem fui eu, pequeno rapaz eternamente vagueante pelas ruas que eu não vi?
Poderei dizer que o sol não nascerá? Poderia, mas duvido da verdade eterna dessas ilusões esbatidas. Porém, se um dia o sol não nascer, eu continuarei aqui. Aqui ou noutro lugar. Aqui onde eu seja. Numa qualquer gaveta.
O sol não tem que nascer e eu não tenho que viver numa casa de boneas. Mas é um grito de guerra o meu desejo por esses estranhos pertences, por essas pequenas coisas que, não estando, agarro sólidas na mão.
Se algum dia eu chegar aqui, direi que sou feliz e que o pôr-do-sol, que se esbate sob os montes que me enfrentam, será apenas um receio distante e o chamamento a uma espera livre.
Nunca acreditei que crescer implique afastarmo-nos. Crescer implica aprendermos a pertencer aqui. Onde quer que esse lugar seja.
Mas agora, velho homem, farrapo, saberei ainda como se cresce? Aqui?
*Rita Esteves [um velho amigo imaginário?]