“«Estás velho e acabado! Deixas-te assustar de morte por uma pomba, uma pomba obriga-te a refugiares-te no quarto, derruba-te e aprisiona-te. Vais morrer, Jonathan. Vais morrer, se não já pelo menos muito em breve e a tua vida terá sido falsa, estragá-la-ás, na medida e que foi abalada por uma pomba. Tens que matá-la, mas não podes matá-la. Nem consegues matar uma mosca. Contudo, antes uma mosca ou um mosquito ou um escaravelho, mas nunca uma coisa de sangue quente, um ser com cerca de meio quilo e sangue quente, como uma pomba. És mais capaz de atirar contra um homem. Pum! Pum! É rápido. Faz apenas um buraquinho com cerca de oito milímetros. É um trabalho limpo e permitido por lei, em legítima defesa, no parágrafo um da ordem de serviço para o pessoal de guarda com licença a porte de arma. É mesmo necessário. Ninguém te censurará se abateres um homem a tiro. Pelo contrário. Mas uma pomba? Como se abate uma pomba? Uma pomba esvoaça. Erra-se facilmente o alvo. É perturbar a ordem pública disparar contra uma pomba, resulta na apreensão de arma, na perda do emprego. Vais para a prisão se disparares contra uma pomba. Não, não podes matá-la, mas também não podes viver com ela. Uma pessoa não pode viver numa casa habitada por uma pomba. Uma pomba é o símbolo personificado do caos e da anarquia, uma pomba voa em todos os sentidos da forma mais imprevisível, deita as garras e arranca os olhos. Uma pomba suja ininterruptamente e espalha uma nuvem de bactérias destruidoras e o víros da meningite. Uma pomba atrai outras pombas, o que implica acasalamento e uma reprodução acelarada. Ficarás cercado por um exército de pombas. Jamais poderás sair do teu quarto, morrerás de fome, sufocarás nos teus próprios excrementos, serás obrigado a lançares-te pela janela e esmagar-te-ás no passeio. Não. És demasiado cobarde. Ficarás fechado no quarto e gritarás por socorro, pedirás que chamem os bombeiros para que acorram com uma escada e te salvem de uma pomba. De uma pomba! Ficarás exposto à troça do prédio, à troça do bairro. ‘Olhem para Monsieur Noël’, gritarão as pessoas e irão apontar-te o dedo. ‘Olhem para Monsieur Noël, que precisa que o salvem de uma pomba!’ E serás internado numa clínica psiquiátrica. Oh, Jonathan, Jonathan! A tua situação é desesperada. Estás perdido, Jonathan!»”
Patrick Süskind, A Pomba
AHAHAH! Isto é absolutamente hilariante (: E ainda há quem diga que não gosta de ler! Quem não gosta de ler o relato de um homem prestes a ter um ataque de loucura quando se depara com uma pomba à porta do quarto? * É claro que só podia ver uma pomba (;
*Rita
![pomba_c[1]](http://ritaesteves.files.wordpress.com/2010/06/pomba_c1.jpg?w=500&h=375)